Sharon Bethea

Currículo – Professora do Departamento de Aconselhamento Educacional, coordenadora do Programa de Estudos Afro-estadunidenses, e professora integrada ao Programa de Estudos “Inner City” da Universidade do Nordeste de Ilinois. Ela serve no Conselho Naciontal da ABPsi e foi ex-presidente do núcleo de Chicago. Ela tem publicado inúmeros artigos em revistas profissionais e recentemente tem co-editado a Revista Pedagogias da Libertação de Mulheres Negra: resistência, transformação dentro e além da academia (Black Women´s Liberatory Pedagogies: resistence, transformation within and beyond academy). O atual interesse de pesquisa de Dra. Bethea é nas dimensões teóricos e práticas das pedagogia afrocentrada; sistemas tradicionais de cura afrocentrados; relacionamento cívico entre Escolas de Liberdade (Freddom Schools) de afro-estadunidenses, Tanzinia  e Oakland. Ela também facilta programas de estudantes para o Brazil, Egito, Gana e Tanzania. Ela tem 30 anos de facilitação para bem estar onde ela utiliza pedagogia afrocentrada para curar e servir a comunidade afro-estadunidense.

Sua fala na Reunião Online Da Associação de Psicólogos Negros (ABPsi) dos EUA – 18/04/2020 (Resposta de Psicólogas/os Negras/os frente à Pandemia)

SHARON BETHEA (Tradução Simone Gibran Nogueira)

Eu quero refletir sobre essa noção do impacto da pandemia na saúde mental da população de ascendência africana. MuitoS de nós sabemos e estamos experienciando a narrativa: o impacto da supremacia racial branca, depressão, abusos, solidão, problemas crônicos de saúde mental, incluindo as consequenciais do isolamento social. Mas eu quero propor que a gente faz uma pequena virada nessa narrativa. Não me entendam errado, eu não quero minimizar as perdas deste tempo. Meu coração está cheio com minhas lágrimas e meus pensamentos…eu estou só dizendo que nós deveríamos focar nas nossas habilidades coletivas de cura e proteção da nossa própria mágia pessoal. Eu proponho que este sentido profundo da existência tem muito valor. E esta é só uma introdução que  estou propondo.

 Vamos considerar as formas africanas de Ser e de cura.  Primeiro elas são mais acessíveis para nós e não tem custo. Elas tem milhões de anos, que provam sua efetividade. Mesmo agora estudos na Tanzânia mostram que pessoas com educação superior,  idosos,  pessoas que supostamente se chamam cristãos,  se tornam curandeiros tradicionais em tempos como este.

Nós falamos dos estudos na África do Sul, sem falar das práticas de cura no Brasil, em Cuba, no Caribe, na África do Sul e mesmo nos Estados Unidos. Eu proponho que para o nosso bem-estar é melhor que sejamos como uma família negra. Ser um curandeiro africano demanda um chamado, um comprometimento e um longo treinamento. Mas tem algumas coisas que a gente pode desprender da mágica africana para abordar algumas dessas respostas negativas no tempo atual. Há um mês eu li o artigo da Dr Kelly,  e me marcou bastante. Eu quero dividir algumas coisas sobre a resistência africana que nós deveríamos incorporar nesse tempo de isolamento. 

Eu quero falar de nutrição que é uma longa conversa.  Mas os africanos têm grande conhecimento sobre o poder das comidas e das ervas. Nós estudamos isso, o poder dos vegetais para curar mente corpo e espírito.  A rejeição a comida processada reduz a depressão e  ansiedade.  Então vamos pensar em uma dica nesse sentido, a noção de jardinagem.  Eu preciso dizer que eu sou uma garota da cidade, mas também eu sou uma fazendeira.  Mexer no Jardim fortalece o nosso espírito e melhora nosso bem viver. Nós podemos voltar atrás e mexer com a terra. Isso nos conectar diretamente com a Terra e nos lembra da ligação com a mãe Terra. Você facilmente pode fazer um jardim no apartamento. Isso de proporciona o prazer de consumir algo que você mesmo plantou, e quanto mais colorido melhor.

Nós conversamos sobre escolarização em casa. Eu vi umas postagens no facebook que diziam sobre o estresse de escolarizar nossas crianças em casa. Isto aqui é escolarização em casa, quando nós conversamos sobre o que ensinar para nossa crianças. Nossas crianças estão bem… então vamos ensinar nossas crianças de ascendência africana como sobreviver. Conversamos sobre essa noção de crescimento, crescer junto com suas crianças. Muito de nós podemos ter ideia de quanto podemos nos divertir ao brincar com a Terra. Se você não tem acesso a Terra, encontre um lugar na cidade. E comece a perceber as nuances de como a natureza se expressa. É muito maravilhoso. As vezes eu piro quando eu encontro um lugar, ouço os passarinhos cantarem, observo como as coisas crescem. É muito bom perceber o quão importante essas coisas são.

E a noção de ritual – Os rituais são muito importantes para nossa saúde e bem-estar.  Muitos de nós os praticamos sem saber que estamos fazendo. Como a hora de dormir, a leitura para nossas crianças, o jantar de domingo. O que precisamos fazer é ter a intencionalidade, fazer estas práticas com intenção. Praticar entendendo que elas vão impactar o nosso bem estar. Os rituais na comunidade africana não podem ser banalizados. Porque eles nos ajudam a conectar com nossos ancestrais. Eles nos conectam com os ancestrais e com os espíritos. O ritual é sagrado. Da concepção até a morte os rituais marcam a vida.  Os rituais acordam a comunidade, dão cultura e significados.  Muitas coisas podem ser feitas em rituais, basta fazer com propósito, com intenção conectada com África.  Basta olhar para as práticas dos nossos mais velhos. Todos nós temos histórias de cura em nossos avós e pais.  Nós sabemos que eles funcionam.  Vamos voltar para eles.  Isso são conhecimentos de raiz africana e eles continuam e continuam para nossa verdadeira sobrevivência. 

Há pouco tempo atrás eu liguei para uma amiga minha da Tanzânia e perguntei como vocês estão, trancados em casa ou ainda continuo caminhando sobre as folhas?  Ela respondeu continuamos caminhando sobre as folhas.  Entender a importância de conectar novamente com o espírito africano quando nós pensamos nessa saúde mental negativa. Então eu quero pensar como a gente se separa disso.  Como nós saímos disso. Porque está em nós fazer isso. Está em nós sermos africanos e é assim desde o começo. Tem um outro lugar que eu quero ir sobre formas práticas de como nós podemos lidar para fortalecer nossa bem estar. 

Tem um provérbio Akan que diz que: não há nenhum problema em aprender com seu interior. Então, quando conversamos sobre provérbios e maneiras de viver, há muitas e muitas respostas nos provérbios. Vocês já viram isso antes, certo.  O truque nesse momento é: como nós vamos tatear nossos super poderes? Mesmo que isso pareça um clichê. Mas nós somos mágicos e podemos voar! Não somente literalmente, mas ficcionalmente também. Então porque não começamos a usar esta mágica e entender? Eu gosto quando alguém fala do ar. Eu lembro de ir para fora de casa, dar uma andada. O ar está mais doce. As estrelas estão mais próximas. Entender este sinal e o que ele significa precisa de conexão com a Terra e a natureza. A mãe terra precisava de um tempo. E graças a Deus ela resolveu só distrair um pouco, porque ela poderia acabar com a coisa toda. Esta ideia de que a Terra precisava de um tempo, também nos diz que é a hora de nós também darmos um tempo. É a hora de nós conversarmos com nossas sombras. E nós temos algumas sombras. Deus, esse é um momento perfeito para mexer com sua intimidade africana e conversar com suas sombras. Entender o poder de ser africano. Isso começa com a gente, tem uma infinidade dentro nós. Todos os livros dizem isso. 

Tem uma coisa interessante. Eu tive a chance de ir ao Egito e o nosso guia era Baba Thompsom. Ele arrumou um nubiano e tocou em nossos ombros dizendo: o vou mostrar a verdadeiro Núbia. Fomos ao lugares chave. E meu Deus, conhecer aquele povo antigo, que foram os primeiros e que sobreviveram a tudo. Ele falou: todos os livros falam de onde foi que começou, e foi aqui e está em todos nós. Então como nós começamos a tocar em tudo o que está em nós? 

Também quero falar dessa noção da força feminina – quando eu falo da força feminina eu falo de honrar Seth. Quem nos deu corpo e nos criou e nos forçou a manter a harmonia e a paz dentro da comunidade. Seth é a rainha originária, filha, guerreira e sábia sobre quem dizem que no começo ela era a mais velha das mais velhas. E a deusa de onde tudo surgiu/floresceu. Então nós falamos desta força de energia feminina, todos tem essa energia feminina. Nós fomos construídos socialmente para não acreditar. Mas todos temos esse papel e acesso a esse papel. Entender que esse é um momento de honrar, é um momento de harmonia, que moverá a todos para um lugar melhor, para um espaço maior e entender nossa existência enquanto descendentes de povos africanos.

Um amigo do continente bombou meu WhatsApp para me lembrar disso. Para me lembrar que eu estava conectada à África. Que no meio disso tudo, é daí que você tira sua força, suas habilidade, e seu entendimento que tudo é sobre o espírito. Porque tudo isso tem haver com ser espírito.

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