II Mostra de Práticas em Psicologia (leitura étnico-racial)

Abertura da II Mostra de Práticas em Psicologia – Anderson Lopes Miranda, liderança do Movimento Nacional de População de Rua representou os Movimentos Sociais na mesa oficial. Um sinal importante do compromisso social da Psicologia Brasileira.

De 20 a 22 de Setembro tivemos no Brasil um evento histórico – II Mostra Nacional de Práticas em Psicologia. Nós, psicólogos e psicólogas, estamos comemorando 50 anos da profissão de Psicologia no Brasil. Um dos objetivos do evento era mostrar a diversidade de práticas em psicologia. Tivemos 32.000 pessoas inscritas e 4.000 trabalhos apresentados. A minha participação nesse evento gigantesco foi focada em ações que envolviam uma leitura étnico-racial. Gostaria de compartilhar alguns pontos da II Mostra Psi dentro desta perspectiva.

Valdelice Veron, liderança Guarani-Kaiowá homenageada.

Para começar, destaco tanto o convite para o Movimento Nacional de População de Rua para participar da Mesa de Abertura, quanto o Prêmio Paulo Freire concedido à Valdelice Veron, liderança indígena Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Em seu discurso ela trouxe de formar brilhante e viva do massacre que seu povo e os povos indígenas ainda sofrem no Brasil, bem como a luta de resistência e sobrevivência indígena. Participaram também da mesa estendida de abertura, psicólog@s e entidades de países latino-americanos e lusófonos (Portugal, Moçambique, Angola, Cabo Verde).

Uma análise, mesmo que superficial, dos trabalhos inscritos na Mostra Psi revelam uma realidade  racista e discriminatória da Psicologia Brasileira. Dos mais de 4.000 trabalhos inscritos apenas cerca de 80 deles foram relacionados com questões étnico-raciais, incluídos neles afro-brasileiros e povos indígenas. É claro que há uma infinidade de trabalhos em prisões, capes AD, instituições de jovens com liberdade assistida, etc, etc, etc…em muitos deles a grande maioria da população é negra. Porém a leitura étnico-racial nestes trabalho inexiste, evidenciando como sempre o silêncio característico da nossa sociedade brasileira racista. Esta constatação nos trabalhos da II Mostra Psi evidencia como ainda estamos atrasados ​​ no que se refere à luta anti-racista na Psicologia

A boa notícia é que este mesmo evento foi um solo fértil para organizar mudanças

10 anos da Resolução CFP 018 / 2002 – contra o racismo

 em relação a esta situação racista e discriminatória. Psicólog@s, grupos organizados e entidades apresentaram mesas, fizeram reuniões e produziram agendas importantes para um futuro bem diferente para os próximos 50 anos da Psicologia Brasileira, Latino-Americana e Lusófona. Um marco visual e importante foi o grande outdoor “Psicologia Contra o Racismo” – divulgando 10 anos resolução política do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que estabelece normas para a atuação de psicólog@s em relação ao preconceito e à discriminação racial.

Psicólogos Caboverdianos e Moçambicanos em reunião com Psicólog@s Negr@s e ANPSINEP – II Mostra Psi

Outro passo importante é a ação internacional do CFP. Ele está construindo uma parceria e agenda com países Lusofonos (Portugal, Moçambique, Cabo Verde e Angola). Estes países apresentaram trabalhos e mesas durante a Mostra Psi, bem como construíram agendas com entidades e psicólog@s brasileiro@s. Vários acordos políticos foi assinados entre eles para avanço a Psicologia em Língua Portuguesa,  especialmente em uma perspectiva Sul-SulA organização do II Encontro Nacional de Psicólog@s Negr@s e pesquisadores das relações étnico-raciais (II PSINEP para março de 2013) convocou uma reunião com os psicólogos africanos para organizar uma agenda comum.

Psicólogos Angolanos em reunião com Psicolog@s brasileir@s e ANPSINEP – II Mostra Psi.

Outras atividades que considero importante destacar foram mesas redondas sobre Psicologia e Povos Indígenas as quais tiveram importantes apresentações que vão pautar um debate profundo sobre como a Psicologia pode fortalecer a luta dos povos indígenas; Psicologia Latino-Americana da Libertação como instrumento para construir processos de descolonização dentro do pensamento tradicional em psicologia; e possibilidades de produção de novas epistemologias em psicologia baseadas na visão de mundo própria dos povos indígenas.

Os debates foram realmente consistentes e inspiradores inclusive para ações com outras populações como a afro-brasileira. Temos muito o que caminhar, desconstruir, construir e re-construir para produzirmos uma sociedade mais justa e igualitária.

Por fim, é importante destacar as mesas-redondas e apresentações de trabalhos de latino-american@s. Destaco especialmente os relacionados com a Psicologia Latino Americana da Libertação fundada por Martin-Baró em El Salvador. Entre elas, está a mesa realizada na PUC-SP “Experiências da psicologia da libertação na América Latina” com a presença de Edgar (Colômbia), Amilcar (Guatemala) e José (México).

Mesa “Experiências da psicologia da libertação na América Latina” com Edgar da Colômbia, Amilcar da Guatemala e José do México na PUC-SP. II Mostra Psi.

 

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