I Ciclo do GEPAL

Entre julho de 2020 e agosto de 2021 aconteceu a experiência do projeto piloto do Grupo de Estudos em Psicologia Afrocentrada na Lusofonia – GEPAL. Apresentamos a seguir um pouco do histórico dessa iniciativa e alguns dos resultados dessa jornada.


O Projeto Piloto do GEPAL surgiu em 2020 a partir da iniciativa da Dra. Simone Gibran de reunir psicólogas/os e pesquisadoras/es que se interessam por Psicologia africana. Além do objetivo comum de estudar referências culturalmente informadas pela raiz africana e buscar descolonizar as ciências psicológicas, o coletivo também se orientou e vivenciou uma metodologia de afrocentramento. 

Este projeto piloto teve duração de um ano e os participantes eram diversos em gênero, pertencimento étnico-racial e formação. Eram mulheres e homens cisgêneros, de orientações sexuais diversas, negras/os e não-negras/os, do Brasil e de Angola, em sua maioria psicólogas/os pós-graduadas/os, com exceção de um psicólogo sem pós-graduação e uma pesquisadora da linguística parceira do projeto.

Mário José Chanja, N’kwanduenga de Mandombe no Instituto Sankofa em Angola, professor de Psicologia Criminal no Instituto Superior Politécnico Alvorecer da Juventude; Ms. Cibele Bitencourt Silva, psicoterapeuta clínica na Paraíba; Dra. Elcimar Dias Pereira, professora e psicoterapeuta que trabalha com bioenergética e abordagem sistêmica em Goiás; Dr. Ramon Luis de Santana Alcântara, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Maranhão.; Dra. Claudia Marinho Wanderley, pesquisadora da linguística do Centro de Lógica Epistemologia e História da Ciência da Universidade Estadual de Campinas. Dra. Claudia participou do GEPAL como parceira e colaboradora de trabalho de Dra. Simone.

Em relação à perspectiva de afrocentramento, todas/os participantes foram incentivados a se apresentar e se localizar enquanto sujeitos de sua própria história e produzir suas leituras de mundo e reflexões críticas a partir desta bússola. Esse processo de autoreflexão e conscientização incluia a apresentação do pertencimento étnico-racial de seus antepassados, formações familiares e institucionais, experiências profissionais e aspirações de mudança no mundo num sentido antirracista. 

No que se refere aos estudos e discussões realizadas, a cada reunião os entendimentos comuns  e unânimes, chamados de “pontos fortes”, foram analisados e organizados em três categorias: experiências vividas e refletidas dentro do grupo de estudos, mentira mortal, e caminho para libertar a Psicologia e construir Psicologia Afrocentrada.

A promoção dessa auto reflexão pessoal, a exposição de si num lugar de refúgio coletivo e elaborações reflexivas a partir de cada lugar de fala relacionado com as referências estudadas, foi percebido pelas/os participantes como um processo de cura, ou mais precisamente de auto-cura em relação à mazelas psico-emocionais do racismo.

Petronilha B. G. e Silva nos apresenta que valores de refúgio são aqueles “que sobreviveram à opressão da escravidão, da colonização, do racismo; são também valores que, mesmo tendo sido construídos nestas circunstâncias, se contituem possibilidade de proteção, segurança, fundamento para viver, pensar, construir” (Silva 2011, p. 83 e 84)

Notadamente, dois conceitos/processos se destacaram nas discussões e entendimentos construídos coletivamente. Um foi a interculturalidade enquanto diálogo igualitário entre diferentes perspectivas históricas e culturais marginalizadas, bem como o entendimento de que nas relações de dominação e imposição de modelos únicos de humanidade não há diálogo. Outra compreensão sobre processos foi o conceito de intersubjetivação enquanto diálogo necessário entre saberes acadêmicos e saberes tradicionais orais para o avanço nas ciências psicológicas no século XXI numa perspectiva antirracista.

A elaboração desta experiência foi registrada em dois artigos produzidos pelo grupo e que foram submetidos a publicações científicas. Todos os participantes foram convidados a apresentar esta experiência no lançamento do II Ciclo do GEPAL. Em agosto encerramos o projeto piloto 2020-2021, certos de que ele foi bem sucedido.

O sucesso desta experiência piloto desdobrou no processo de consolidação deste projeto. Em 2021 o GEPAL vai para o seu segundo ciclo, que começa em setembro e sua duração vai até agosto de 2022. As inscrições vão até o final de agosto.

Publicado por ianaalvarez

Interessada nas artes gráficas, antropóloga e das danças. Estudo antropologia, cultura afro-ameríndia e comunicação.

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